14/06/07

Coisa de menina!

Ele saiu da locadora com o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Também, sentia necessidade de ajeitar a vida dos outros e como a protagonista, não tinha o menor talento para dar um jeito na sua própria vida. Mas o fato de ajudar sem ser percebido a vida de terceiros, no fundo amenizava a dor de se sentir tão sozinho e desambientado. Era ele o que os “cool” chamavam de “Cary” e até gostava disso, pois a pobre menina de Stephen King era o seu tipo de garota. Tinha a mania de procurar o menor traço de ternura em todas as mulheres, acreditava mais do que ninguém ser toda mulher meiga em sua essência e que ele era capaz de colher essa ternura; quando conseguia vencer nos raros momentos sua timidez, levava foras brutais quando não, era violentamente humilhado e ofendido.
Seus livros de auto-ajuda haviam perdido a graça e se tornavam repetitivos, deixou de comprá-los como também o antidepressivo, caro demais. Resolveu manter o Rivotril, pois era o único jeito de conseguir desligar sua mente fértil e dormir, mesmo sendo um sono robotizado, acordava com uma sensação falsa de descanso, mas era melhor do que rolar na cama a madrugada inteira. Tinha o problema da falta de tesão provocada pelo remédio, porém tornou-se um alívio, não ficar mais com o pênis sempre dolorido pela masturbação excessiva.
Como todos os dias; acordou, escovou os dentes, deu comida para o dog – seu gato de estimação e único habitante além dele no apertado ap, tomou seu leite com cereal, lavou a pouca louça da noite anterior – tinha controlado mais sua mania de limpeza; desceu os seis andares de escada - aversão a elevadores, trabalhou o dia inteiro na máquina de xeroz da lan hause com Fausto, saiu às 19h00min. Em casa tomou seu achocolatado, ligou o som, selecionou Special Needs. Placebo era tudo e perfeito para o momento.
...Tirou sua latinha que guardou um dia biscoitos finos e trouxe à mesa, abriu a caixa com delicadeza e retirou seu conteúdo, rasgou o saquinho, humm essa preta chinesa é the best, colocou uma porção maior do que a de costume na colher; pegou o zippo ascendeu, esquentou até diluir, agulha estava rombuda, mas era o jeito, garrote no braço, veia pulsando e o pico... Solta o garrote, sangue correndo a mil nas veias levando a solução de seus problemas, não consegue retirar agulha com a seringa, já não importa mais, fecha os olhos, torpor, prazer descomunal e a certeza de que dessa vez não voltaria. Paz finalmente.
Marcou a página com a flor seca de sempre, fechou o livro, desligou o som, e se perguntou por que raios ela se drogava, ela tinha tudo e por que guardar aquilo numa caixa de biscoitos? Éh! Só pode ser mesmo coisa de menina. Ligou a TV e DVD e assistiu pela enésima vez a seu filme preferido.

Ouvia ao escrever Clarisse (Legião Urbana)

5 insurgiram-se:

Anna Beatriz disse...

Adoro o filme da Amélie poulain
e vc ainda estava escultando Clarisse do Legião, só poderia dá no que deu, em um texto super, um passaro na gaiola que um dia espera voar pelo caminho mais bonito.

Vc é foda Nielsen, que bom que vc fez um blog pra colocar e mostrar isso!

Menina disse...

Luxooooooo!
Encontro-me em cada momento dessa " coisa de menina". Tudo na medida.Do seu nascimento até sua glória.
Amei!

Becky disse...

Subversão máxima.. no extremo delicado mundo feminino.. do jeito que eu gosto!

argh, lemòn disse...

Classe, finíssimo, Nielsen Skywalker.

Considere-se linkado, cabrón.

Adriano disse...

Aiai caramba!
Porra! Estava viajando nesta história.. Que coisa louca!