Ele saiu da locadora com o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Também, sentia necessidade de ajeitar a vida dos outros e como a protagonista, não tinha o menor talento para dar um jeito na sua própria vida. Mas o fato de ajudar sem ser percebido a vida de terceiros, no fundo amenizava a dor de se sentir tão sozinho e desambientado. Era ele o que os “cool” chamavam de “Cary” e até gostava disso, pois a pobre menina de Stephen King era o seu tipo de garota. Tinha a mania de procurar o menor traço de ternura em todas as mulheres, acreditava mais do que ninguém ser toda mulher meiga em sua essência e que ele era capaz de colher essa ternura; quando conseguia vencer nos raros momentos sua timidez, levava foras brutais quando não, era violentamente humilhado e ofendido.Seus livros de auto-ajuda haviam perdido a graça e se tornavam repetitivos, deixou de comprá-los como também o antidepressivo, caro demais. Resolveu manter o Rivotril, pois era o único jeito de conseguir desligar sua mente fértil e dormir, mesmo sendo um sono robotizado, acordava com uma sensação falsa de descanso, mas era melhor do que rolar na cama a madrugada inteira. Tinha o problema da falta de tesão provocada pelo remédio, porém tornou-se um alívio, não ficar mais com o pênis sempre dolorido pela masturbação excessiva.
Como todos os dias; acordou, escovou os dentes, deu comida para o dog – seu gato de estimação e único habitante além dele no apertado ap, tomou seu leite com cereal, lavou a pouca louça da noite anterior – tinha controlado mais sua mania de limpeza; desceu os seis andares de escada - aversão a elevadores, trabalhou o dia inteiro na máquina de xeroz da lan hause com Fausto, saiu às 19h00min. Em casa tomou seu achocolatado, ligou o som, selecionou Special Needs. Placebo era tudo e perfeito para o momento.
...Tirou sua latinha que guardou um dia biscoitos finos e trouxe à mesa, abriu a caixa com delicadeza e retirou seu conteúdo, rasgou o saquinho, humm essa preta chinesa é the best, colocou uma porção maior do que a de costume na colher; pegou o zippo ascendeu, esquentou até diluir, agulha estava rombuda, mas era o jeito, garrote no braço, veia pulsando e o pico... Solta o garrote, sangue correndo a mil nas veias levando a solução de seus problemas, não consegue retirar agulha com a seringa, já não importa mais, fecha os olhos, torpor, prazer descomunal e a certeza de que dessa vez não voltaria. Paz finalmente.
Marcou a página com a flor seca de sempre, fechou o livro, desligou o som, e se perguntou por que raios ela se drogava, ela tinha tudo e por que guardar aquilo numa caixa de biscoitos? Éh! Só pode ser mesmo coisa de menina. Ligou a TV e DVD e assistiu pela enésima vez a seu filme preferido.
Ouvia ao escrever Clarisse (Legião Urbana)
5 insurgiram-se:
Adoro o filme da Amélie poulain
e vc ainda estava escultando Clarisse do Legião, só poderia dá no que deu, em um texto super, um passaro na gaiola que um dia espera voar pelo caminho mais bonito.
Vc é foda Nielsen, que bom que vc fez um blog pra colocar e mostrar isso!
Luxooooooo!
Encontro-me em cada momento dessa " coisa de menina". Tudo na medida.Do seu nascimento até sua glória.
Amei!
Subversão máxima.. no extremo delicado mundo feminino.. do jeito que eu gosto!
Classe, finíssimo, Nielsen Skywalker.
Considere-se linkado, cabrón.
Aiai caramba!
Porra! Estava viajando nesta história.. Que coisa louca!
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