12/07/07

CAUSA MORTIS

“Te amo sem saber como nem quando, nem onde
Te amo diretamente sem problemas ou orgulho:
Assim te amo porque não sei te amar de outra maneira,
Senão assim, deste modo, em que não sou nem és
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha
Tão perto que se fecham seus olhos com meu sonho”
- O bilhete terminava desse jeito?
- Sim!
- Parece não ter sentido dor!
- É ele parece sereno.
- Acho que está sorrindo certo?
- Não me parece um sorriso, os olhos estão distantes... Melancolizados creio eu.
- Pra mim está com cara de saudade, daquela bem doída.
- Tá com saudade nada, ta é sereno mesmo.
- A causa mortis você arrisca?
- Rapaz bonito, jovem... atores, sabe como são... Dramáticos, super intensos, só pode ter sido overdose.
- Do jeito que ele aparenta só pode ter sido de amor!
- Amor! Você enlouqueceu? Estamos em pleno século 21, ninguém morre de amor!
- Você que é ridículo, desde que o mundo é mundo sempre tem alguém que morre de amor!
- Que nada o único que morreu por amor foi Jesus Cristo o resto não. Tem sempre um outro motivo.
- Eu disse: morreu de amor e não por amor!
- E lá tem diferença isso?
- Claro que sim, quem morre de amor morreu tendo o amor como à causa da morte e quem morreu por amor, tem a causa mortis qualquer que seja.
- Ih rapaz agora complicou tudo, vamos deixar para o legista resolver.

Algum tempo depois. Na sala de necropsia do IML.

- Então doutor foi overdose?
- Foi!
- Eu não te falei que era droga!
- Não tem nada haver com droga, disse o legista.
- Então como o senhor pode atestar uma overdose?
- É simples! Ele teve uma produção excessiva de adrenalina natural, ou seja, uma dosagem letal, que o levou a óbito. Overdose!
- Como legista, acho que ele viveu alguma grande emoção, para justificar excessiva produção desse composto químico tipo: saltar de pára-quedas, bang jump, asa delta essas coisas que jovens malucos fazem. Como o encontraram?
- Ah! Doutor, eu até fotografei, olha aqui ó.
- Vocês o encontraram assim? Perguntou aos policiais.
- É sim senhor, e tinha mais esse bilhete aqui no chão ao lado do corpo.
O médico leu atentamente, sorrindo, inspirou fundo ao reconhecer a parte final do Soneto XVII de Pablo Neruda.
Dirigiu-se a escrivaninha de mogno, sentou-se a frente do computador passou a preencher o laudo imprimindo-o em seguida.
E pela primeira vez em 25 anos de profissão desejou ser o paciente, sentindo-se feliz ao assinar a certidão óbito.
Causa mortis: AMOR.

Ouvia ao escrever How can you mend my broken heart (Al Green)

6 insurgiram-se:

Anônimo disse...

Morrer de ou por amor é o melhor jeito de morrer, agora com Neruda de pano de fundo é glamuroso e perfeito. Que menino mais lindo e Nielsen vc como sempre estupendo.

argh, lemòn disse...

hehehe, aquele contraste entre posts. Tem algo do antigo? Republique-se.

Becky disse...

Eu morro de vez em quando..

Adriano disse...

Amor é a lei, amor sob vontade
Não amor desperdiçado aos ingratos
PS: será que no dia da sua morte ele não ouvia: "Cadê. cadê, cadê o corno..?". Rs

Bruna disse...

Melhor texto que eu li teu nos últimos tempos... ficou foda!

beijo.

argh, lemòn disse...

ei mande os txt do blog antigo, seu putinho